Arteiros de Plantão e as 9 Musas

Artimanhas



 

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ÚLTIMO DIA DE VERÃO

 Era meio de semana, um calor daqueles... 39 graus, e o último dia de verão. Decido mergulhar no mar, uma vez que a estação findara e minha pele ainda estampava a cor da última primavera.

 Estico a canga na areia. Olho em volta, já confortável em minha cadeira  de praia:  mar calmo, e transparentes águas. A primeira impressão é de comunhão, uma vez que muitos tiveram a mesma idéia nesta manhã de areias quentes e concorridas.

Vejo, então, a magra mulher de meia idade que há poucos dias ali mesmo estava quando eu caminhava no calçadão. Ajoelhada na areia, aquelas mãos realizam vertiginoso trabalho de retirar das sacolas que a rodeavam as mais diversas embalagens, sacos, papeis variados em cores e tamanhos. Para cada saquinho retirado era dedicada especial atenção: desdobrava-o para depois dobrá-lo com maior capricho ainda. Findada a dobradura devolvia tudo à sacola maior, destinada aos saquinhos já vistoriados. Chegara a vez de uma dessas reluzentes embalagens de batata frita. E o ritual: desenrola, desamassa, abre, olha o interior, e esfrega um pequeno pano. Esfrega com tal intensidade que se poderia deduzir fosse possuidora de larga experiência nos serviços domésticos, mas agora, sem teto e trabalho, restava-lhe cuidar bem dos únicos pertences, tudo aquilo  que lhe poderia ser útil, e mesmo inútil, nas ruas da amargura, nas noites de inverno, nos dias de verão - outros que virão.

Guardava, assim, também os gestos que lhe eram ainda familiares, como o de limpar algo, cuidar de, ser responsável por .
Esta crível mulher do terceiro mundo, globalizado, realizava seu trabalho sem em momento algum levantar os olhos para aqueles que, como ela, banhavam-se ao sol daquela manhã. Penso que sabia estar sendo observada como um ator no palco, ou como um animal  na jaula, mas não encarava a platéia, porque certamente era  um difícil papel para se viver, e o pior, provavelmente,  é o que ela percebia da platéia quando esta ousava olhar para a maltrapilha. Talvez percebesse o quanto era ignorada.

Fechada a sacola - a dos papeis e sacos -  sem hesitar pega uma bolsa feminina, de couro velho e ressecado. Abre, observa o interior, e inicia a retirada dos objetos. Em primeiro lugar uma carteira que continha uns papeis.  Ela os confere e guarda. Depois, um frasco de perfume. Retira a tampa, cheira, coloca um pouquinho no pulso, cheira novamente e, com firmeza, num gesto de glorioso desapego,  joga areia abaixo o líquido do frasco que retorna para a bolsa vazio desta vez. Vazio como as outras embalagens. Talvez, por algum motivo minha heroína tenha decidido mesmo é colecionar embalagens.

Era a vez do espelhinho. Detém-se um pouco mais neste objeto. Sim, detém-se é no poder mágico do espelho que, inadvertidamente, deslocou o objeto a ser observado.  A mulher parece conferir sua identidade, ou buscar o reflexo do que fora há alguns anos naquela breve e cruel imagem estampada no espelho que, de certa forma e, ao mesmo tempo, tanto a identificava com a imagem de milhares de humanos no mundo, como lhe relatava uma dor íntima, só dela: a miséria e a solidão?  E num ato de rebelião contra tal estado de coisas, joga esta imagem recolhida de volta à bolsa.

Sentia-se, talvez, ela mesma uma embalagem desgastada e sobrevivente, sendo que ela enfrentava o embate de sua angústia, no difícil deparar-se com seus conteúdos perdidos, a cidadania roubada. O que lhe gritava seria o quê? Sua razão de ser não era aquela para a qual estava sendo. E um saquinho de batatas fritas é pleno também quando já vazio, sem conteúdo.

Sentou-se na areia abraçando as pernas e pela primeira vez mirou o mar, bem no horizonte. O que via ali? Que pensamentos, sentimentos,  o primordial gesto de olhar o horizonte lhe  traria agora? Mas não se deteve muito, e de arranco pegou um copo descartável ao seu lado, tomou um gole de algo, cuspiu fora, como se quente estivesse, ou apenas como se querendo esvaziar o copo somente. Líqüido qualquer que não podia matar tal sede, nem preencher tal vazio naquele instante daquela existência.

Levantou-se. Percebo-lhe o traje: apenas a longa camiseta verde rasgada nas costa deixando entrever o sutiã. Seus cabelos desciam à altura do peito. Foram lisos, agora, emaranhados. A pele da face - à força curtida pelo sol - se encarregava do contraste com a branca cabeleira. Usava um colar de enormes bolas amarelas, e pensei que aquela senhora, praieira sim, e excluída, carregava em si um símbolo nacional. Mas não seriam as cores da bandeira, não, meu senhor!
Da bolsa de couro retira um pente, senta-se de novo e, com determinação,  empenha-se  no desembaraço dos cabelos - quase 45 minutos de trabalho. Mas, quanto tempo levará o desembaraço da vida? Desta vida?

*

        O que é o último dia do verão para cada um de nós?...

...Pode ser um mergulho em águas frescas, pode ser um mergulho em águas rasas, ou em águas turvas e bravias, e para um escritor, talvez, seja um dia igual a todos os outros dias em que não apenas olhou, mas viu, e não apenas viu, mas assim escreveu, do mergulho que deu no mergulho que viu.

" Era meio de semana, um calor daqueles! 39 graus, e o último dia de verão. Decido mergulhar no mar, uma vez que a estação findara e minha pele ainda estampava a cor da última primavera..."


Site Novo no Ar!

Entrou hoje no ar o site do escritor e tradutor Mário André D. PachecoClique aqui e leia sobre "A busca da utopia na Ficção Especulativa...
...e o que isso tem a ver com a presente sociedade digital "

Mário André escreveu sobre o filme Devdas no post de 27 de março de 2005, aqui neste espaço. Acabo de vir do site e está prá lá de bem feito e informativo! Parabéns Caro Mário!


 



Escrito por Arteira plantonista às 23:18:55
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VIENI


 

Soave nuvola
Passa indifferente
Non sa niente di me
Nemmeno di questa gente!
 
Naviga il vento
Ventola il verso
Intrattenne la vita
O se co-muove soltanto?
 
Soave nuvola
Fidanzata del vento,
Muovici nel tuo grembo
Ergerci silenziosamente 
 
Che questo giorno ci sia per noi il possibile,
Nuvola che passa, e anche così…
Perenne luce delle chimere!
 
 
By Tânia Barros - Tradução de Eliude Santana (escritora-roteirista) Eliude é brasileira, reside e trabalha na Itália. Participa do site literário domist, fantástico encontro de escritores do mundo inteiro. Obrigada, querida, pelo presente da tradução!!!
 
VEM
 
SUAVE NUVEM,
PASSAS INDIFERENTE,
NADA SABES DE MIM
NEM DESSA GENTE!
 
NAVEGAS O VENTO,
VENTILAS O VERSO,
ENTRETECES A VIDA,
OU SE CO-MOVE SOMENTE?
 
SUAVE NUVEM,
NOIVA DO VENTO,
MOVA-NOS AO TEM VENTRE,
ERGA-NOS SILENCIOSAMENTE...
 
ESTE DIA SEJA PARA NÓS O POSSÍVEL,
NUVEM QUE PASSA,  E AINDA ASSIM...
PERENE LUZ DAS QUIMERAS!


Escrito por Arteira plantonista às 16:45:39
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TEXTOS

 

O texto calou como bem quis a armadura palavra, o cristalizado sentido, a prisão moda, e o jogo de interesses.

O entretenimento e informação caminham  na corda banba, entre o fugaz e repetitivo de um lado, e o democrático e diverso do outro, como bem quis o avanço tecnológico.

O cidadão para sobreviver em alguns meios  manifesta a hipocrisia, como bem quer uma certa teoria da "evolução".

O jornalista há que submeter seu texto ao editor chefe.

O aluno há que submeter seu texto ao que deseja a instituição Escola para passar a diante, como bem quer uma certa corrente da educação ainda muito vigente.

Algumas vítimas de péssimos governos continuarão sendo vítimas de péssimos governos, quando submetem seus votos em troca de favores.

Mas, cientistas, escritores, músicos, poetas, artistas plásticos, alguns, sobreviveram sem submeter seus  textos - e aqui leia-se texto em amplo sentido - apenas ao padrão histórico de sua época, aos ditames do preconceito, e da recepção em voga.

A vida se desenrola sem se submeter ao fato da morte, da existência virtual ou real de qualquer parâmetro, de qualquer sistema, de qualquer interdição. (by tânia barros)

 

* É, fazer o quê? O outro template deu muitos problemas na conficuração dos textos, agora o novo visual vai ficar mesmo levinho. Obrigada Flávio, pelo elogio, e tentarei deixar vc alerta sobre as possíveis curas para o lixo espacial. :-D



Escrito por Arteira plantonista às 17:35:17
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