
kiarte_andreatini_reflexodemulher.gif
ÚLTIMO DIA DE VERÃO
Era meio de semana, um calor daqueles... 39 graus, e o último dia de verão. Decido mergulhar no mar, uma vez que a estação findara e minha pele ainda estampava a cor da última primavera.
Estico a canga na areia. Olho em volta, já confortável em minha cadeira de praia: mar calmo, e transparentes águas. A primeira impressão é de comunhão, uma vez que muitos tiveram a mesma idéia nesta manhã de areias quentes e concorridas.
Vejo, então, a magra mulher de meia idade que há poucos dias ali mesmo estava quando eu caminhava no calçadão. Ajoelhada na areia, aquelas mãos realizam vertiginoso trabalho de retirar das sacolas que a rodeavam as mais diversas embalagens, sacos, papeis variados em cores e tamanhos. Para cada saquinho retirado era dedicada especial atenção: desdobrava-o para depois dobrá-lo com maior capricho ainda. Findada a dobradura devolvia tudo à sacola maior, destinada aos saquinhos já vistoriados. Chegara a vez de uma dessas reluzentes embalagens de batata frita. E o ritual: desenrola, desamassa, abre, olha o interior, e esfrega um pequeno pano. Esfrega com tal intensidade que se poderia deduzir fosse possuidora de larga experiência nos serviços domésticos, mas agora, sem teto e trabalho, restava-lhe cuidar bem dos únicos pertences, tudo aquilo que lhe poderia ser útil, e mesmo inútil, nas ruas da amargura, nas noites de inverno, nos dias de verão - outros que virão.
Guardava, assim, também os gestos que lhe eram ainda familiares, como o de limpar algo, cuidar de, ser responsável por .
Esta crível mulher do terceiro mundo, globalizado, realizava seu trabalho sem em momento algum levantar os olhos para aqueles que, como ela, banhavam-se ao sol daquela manhã. Penso que sabia estar sendo observada como um ator no palco, ou como um animal na jaula, mas não encarava a platéia, porque certamente era um difícil papel para se viver, e o pior, provavelmente, é o que ela percebia da platéia quando esta ousava olhar para a maltrapilha. Talvez percebesse o quanto era ignorada.
Fechada a sacola - a dos papeis e sacos - sem hesitar pega uma bolsa feminina, de couro velho e ressecado. Abre, observa o interior, e inicia a retirada dos objetos. Em primeiro lugar uma carteira que continha uns papeis. Ela os confere e guarda. Depois, um frasco de perfume. Retira a tampa, cheira, coloca um pouquinho no pulso, cheira novamente e, com firmeza, num gesto de glorioso desapego, joga areia abaixo o líquido do frasco que retorna para a bolsa vazio desta vez. Vazio como as outras embalagens. Talvez, por algum motivo minha heroína tenha decidido mesmo é colecionar embalagens.
Era a vez do espelhinho. Detém-se um pouco mais neste objeto. Sim, detém-se é no poder mágico do espelho que, inadvertidamente, deslocou o objeto a ser observado. A mulher parece conferir sua identidade, ou buscar o reflexo do que fora há alguns anos naquela breve e cruel imagem estampada no espelho que, de certa forma e, ao mesmo tempo, tanto a identificava com a imagem de milhares de humanos no mundo, como lhe relatava uma dor íntima, só dela: a miséria e a solidão? E num ato de rebelião contra tal estado de coisas, joga esta imagem recolhida de volta à bolsa.
Sentia-se, talvez, ela mesma uma embalagem desgastada e sobrevivente, sendo que ela enfrentava o embate de sua angústia, no difícil deparar-se com seus conteúdos perdidos, a cidadania roubada. O que lhe gritava seria o quê? Sua razão de ser não era aquela para a qual estava sendo. E um saquinho de batatas fritas é pleno também quando já vazio, sem conteúdo.
Sentou-se na areia abraçando as pernas e pela primeira vez mirou o mar, bem no horizonte. O que via ali? Que pensamentos, sentimentos, o primordial gesto de olhar o horizonte lhe traria agora? Mas não se deteve muito, e de arranco pegou um copo descartável ao seu lado, tomou um gole de algo, cuspiu fora, como se quente estivesse, ou apenas como se querendo esvaziar o copo somente. Líqüido qualquer que não podia matar tal sede, nem preencher tal vazio naquele instante daquela existência.
Levantou-se. Percebo-lhe o traje: apenas a longa camiseta verde rasgada nas costa deixando entrever o sutiã. Seus cabelos desciam à altura do peito. Foram lisos, agora, emaranhados. A pele da face - à força curtida pelo sol - se encarregava do contraste com a branca cabeleira. Usava um colar de enormes bolas amarelas, e pensei que aquela senhora, praieira sim, e excluída, carregava em si um símbolo nacional. Mas não seriam as cores da bandeira, não, meu senhor!
Da bolsa de couro retira um pente, senta-se de novo e, com determinação, empenha-se no desembaraço dos cabelos - quase 45 minutos de trabalho. Mas, quanto tempo levará o desembaraço da vida? Desta vida?
*
O que é o último dia do verão para cada um de nós?...
...Pode ser um mergulho em águas frescas, pode ser um mergulho em águas rasas, ou em águas turvas e bravias, e para um escritor, talvez, seja um dia igual a todos os outros dias em que não apenas olhou, mas viu, e não apenas viu, mas assim escreveu, do mergulho que deu no mergulho que viu.
" Era meio de semana, um calor daqueles! 39 graus, e o último dia de verão. Decido mergulhar no mar, uma vez que a estação findara e minha pele ainda estampava a cor da última primavera..."
Site Novo no Ar!
Entrou hoje no ar o site do escritor e tradutor Mário André D. Pacheco. Clique aqui e leia sobre "A busca da utopia na Ficção Especulativa...
...e o que isso tem a ver com a presente sociedade digital "
Mário André escreveu sobre o filme Devdas no post de 27 de março de 2005, aqui neste espaço. Acabo de vir do site e está prá lá de bem feito e informativo! Parabéns Caro Mário!
Escrito por Arteira plantonista às 23:18:55
Leia este blog no seu celular